sábado, 28 de março de 2009

Sinônimos



Prometi a mim mesmo que se achasse algo que escrevi durante a adolescência eu iria postar no blog. Obviamente não se trata de uma "publicação", já que quase ninguém visita meu cantinho. Fato que me dá uma certa liberdade. Mas vou postar justamente pra que eu possa ter um arquivo virtual disso. De antemão peço desculpas pela ingenuidade do texto. Embora eu sinta falta dessa época... da ingenuidade da vida. Segue abaixo os versinhos quase infantis...



Falar de amor já é poesia

A arte de transformar a tempestade em maresia

Sim! Pois o que é o amor senão um tufão em nosso ser?

Chuva que rega os corações

e faz brotar todo o afã

É poesia de Camões... é música de Djavan





Poesia é viver contigo uma história mais bela que os mitos... musa dos meus escritos.

E nossas vidas, um só verso no universo,

pelo tino do destino se faz içar... quiçá



E então aspiro à poesia

E digo nos versos ainda anônimos: Aspiro a você

Pois você e a poesia são sinônimos!!!

segunda-feira, 23 de março de 2009

Sertanejo

Quero começar citando o trecho de um dos grandes clássicos da música sertaneja: A Boate Azul. A letra diz: “a dor do amor é com outro amor que a gente cura...!!!”.

Discordo por completo. A dor do amor se cura é com amor próprio. Não queira que uma outra pessoa faça por você aquilo que só você pode fazer por si mesmo. Não seja egoísta. Quando você se relaciona com outra pessoa, saiba que ela quer pra ela a mesma atenção que você quer pra si. Ela espera reciprocidade, e não uma via de mão única. Não há relação que dure quando um só dá, e não recebe. E quem quer curar a dor do amor quer apenas receber do outro, como se ele fosse um remédio. Não tem o que dar.


Parece mentira. Mas poucas pessoas se dão conta de que uma relação madura é aquela em que não é preciso cobrar atenção nem cumplicidade. Em que a conversa é tão necessária quanto os beijos, abraços, e carinhos. O amor só se torna cura quando não é visto como remédio, e sim como o amor em si mesmo. Não é por acaso que Kalil Gibran escreveu que o amor se basta.


Tudo bem... mas o que o trecho da “boate azul” tem a ver com isso? Tudo.


Querendo, ou não, trazemos conosco resquícios de nossos relacionamentos passados. Traumas, medos, hábitos, expectativas...


Criamos bloqueios, firmamos conceitos. Somos a soma dos nossos casos antigos. E aí, quando nos envolvemos com outra pessoa, vemos que não somos tampa de panela de ninguém. Isso é lenda. Na prática eu tenho que me moldar ao outro e o outro tem que se moldar a mim. Somente através desse esforço será possível que haja o “nós”. Caso contrário a relação é apenas uma mera conveniência, em que os pronomes continuam no singular: Eu e Tu. Estar realmente aberto pra alguém implica superar os traumas passados, os medos antigos. Estar realmente aberto a alguém é se permitir partilhar, conviver, conhecer. E essa é a atitude que só a pessoa pode tomar.

E o que é que determina isso? O tempo? A intensidade do sentimento? Acho que nem uma coisa nem outra. Certamente isso tudo ajuda, mas não determina. Acredito que essa abertura tem mais a ver com caráter e sinceridade consigo mesmo do que qualquer outra coisa.


E como comecei com música, encerro com Almir Sater e a sabedoria cabocla: "Ando devagar porque já tive pressa... e levo esse sorriso porque já chorei demais!!!"







sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

...


"Tem piedade de mim, Senhor! Aqui estão, não escondo as minhas feridas: tu és o médico, eu o doente; tu és o misericordioso, eu o miserável... Cada esperança minha se coloca na tua grande misericórdia". (Confissões, Livro X, 28.29; 39.40).
Os textos de Santo Agostinho sempre me fascinaram. Eles expressam uma sinceridade que desnuda o homem por trás do bispo. O ser humano por trás do santo. Agostinho vivia o tempo todo lutando contra as fraquezas que o afligia, tinha consciência de sues limites. A história dele fez com que eu mudasse meu conceito de ser humano. Ser “pessoa” dá trabalho. Há momentos em que a nossa humanidade se faz demasiadamente humana e encontramos em nós uma fraqueza que não parece ser nossa. É quando nos deparamos com a realidade de ser o que se é.
Eu, vez ou outra, me deparo com o medo. Pode até parecer uma simples figura de linguagem, ou um pleonasmo, mas não é. O medo me amedronta. Tenho medo de não ser últil para aqueles que amo. Acredito que somos aquilo que deixamos como marcas na vida das pessoas e temo não conseguir deixar nada de bom. Tenho medo de falhar justo na hora em que alguém precisar do meu sorriso, do meu afeto, do meu abraço. Tenho medo de passar em branco.

Na verdade, além disso, acho que tenho medo de não me sentir amado. Por isso aflora em mim esse desejo agudo de amar, e de que me deixem fazer isso. Não se invade corações. Trata-se de território sagrado, envolto em mistérios. Lugar onde nem mesmo Deus ousa entrar sem permissão. Dizem que o coração é uma porta que tem apenas uma maçaneta, e do lado de dentro. Só você pode abrir o seu. Só você pode superar os traumas que o trancafiam e se abrir para o outro. Afinal, deixar que o outro lhe seja útil é uma forma de se deixar amar. E deixar-se amar também é uma forma de retribuir amor.

domingo, 18 de janeiro de 2009

...

Ontem eu vi uma frase maravilhosa: "Para estar junto não é preciso estar perto... e sim do lado de dentro".
Pode até ser que seja verdade. Mas eu sinto necessidade de estar perto. Quero estar do ladinho.

Hoje volto pra rotina de trabalhos que me aguarda em Umuarama. Volto com o coração apertado. Deixo um pedaço de mim. Ela o tomou para si. Não pude reter. É dela. Pertence a ela porque ela conquistou. Eu sou todo dela. Penso nela a cada instante, a cada segundo, a cada nascer e pôr do sol. E se tem uma coisa que motiva a cada dia que passa, é a vontade de voltar pra ela como se nunca tivesse que ter me separado.
Só assim consigo seguir...

Mentiras de Amor

- Cara!! Foi uma mentirinha de nada! Ela não precisava ficar daquele jeito!!!
Foi a desculpa do colega quando me contou sobre o fim do namoro. Só porque ele quis provocar um "ciumínho". Como ele mesmo afirmou.
O ciúme é um pouco como a gripe. Uma hora ou outra ele chega. Não é coisa que precise ser provocada.
Não foi o primeiro amigo que terminou um relacionamento por conta disso. Tive outros. Achavam-se espertos. Exímios provocadores de ciúmes. Mas a gripe virou pneumonia. E todos sabem que pneumonia pode matar.
Normalmente acontece quando o sujeito se encontra num dilema. Quer saber se a namorada realmente o ama, e qual é o tamanho desse amor. Uma mistura de carência com insegurança. É aí que ele tem a espetacular idéia de de testar o amor da parceira.

- Sabe a Júlia? Aquela que era minha namorada quando a gente se conheceu? Ela me procurou. Disse que não consegue viver sem mim. É mole?

É bom ressaltar que Júlia, a ex-namorada, não quer vê-lo nem pintado de ouro. Não se falam há meses. Mas ele sabe que a atual morre de cíumes da ex.

- Quem essa galinha pensa que é? - grita ela - Ela não sabe que estamos juntos? Não poderia ao menos respeitar nosso namoro?. Olha... eu não admito esse tipo de coisa.

O ego do garanhão sobe a mais de mil pés de altura. Mas ele precisa manter o teatro. Encerrar o ato com atuação magistral.

- Minha querida!! Eu disse pra ela que me deixe em paz. Dei um basta nessas atitudes dela.

Enquanto ele diz isso com um semblante todo sério, o narciso que há dentro dele repete sem parar, orgulhoso de um plano bem-sucedido.

- Ela me ama!

Mal sabe ele que, da mesma maneira que a confiança num namoro é feita de pequenas verdades, as mentiras pouco a pouco desgastam. Não são as grandes mancadas que acabam com os relacionamentos. São as mentiras bobas. Essas que a gente costuma achar que servem para apimentar a relação. Um dia os fatos inventados se transformam em verdade. Aí o parceiro (a), cansado (a), dá um basta. Afinal de contas ela não sabe que você mentiu todas as outras vezes. Acha que a pessoa te procurou pela enésima vez, quando na verdade foi a primeira. E que você não foi capaz de colocá-la no lugar dela. Não adianta mais reclamar. O cristal se quebrou.

O galã achou que colhia provas de amor. Na verdade ele semeava veneno no próprio jardim.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Hoje...



Hoje estou meio chateado. Sei lá o que se passa. Vez ou outra eu me pego pensando nessa coisa maluca de planejar o futuro, olhar adiante, buscar o horizonte. Acabo me dando conta de que somos tão volúveis, e que o próprio destino é volúvel. Traçamos metas, fazemos planos... e quem pode garantir que tudo se cumprirá? Não sei. Só Deus. Acontece que faz parte da sapiência divina não nos revelar o “amanhã”. Deixar que ele esteja atrelado ao nosso “hoje”. Talvez seja esse o motivo da minha chateação: o peso da responsabilidade. Quando nos damos conta de que ser feliz depende da gente mais do que qualquer outra pessoa, ou coisa, não é o sentimento de liberdade que se sobrepõe. Mas o do desafio de como lidar com essa liberdade. Os hebreus ficaram errantes no deserto por 40 anos após serem libertados das mãos do Faraó. E reclamavam que tinham saudades da escravidão. Tempo onde a comida e o pouso eram certos. Ter que ir atrás daquilo que queremos por nossos próprios esforços deprime, sim. Hipócrita o que diz que não. Tem dias em que tudo parece inalcançável, longe, impossível. Mas, ao mesmo tempo em que escrevo isso, eu me lembro do quanto já andei pra chegar até aqui. Já andei mais do que esperava andar, já percorri uma longa estrada. E acredito que chegar lá é ter os olhos no final sem deixar de calcar os pés no começo. Não importa o tempo, não importa a hora, e não importa o cansaço. O importante é chegar.
Sei que quase ninguém lê isso, mas ainda assim peço desculpas pelo desabafo. Quando as pessoas me fogem eu me conforto nas palavras. Pô-las pra fora de alguma maneira, é sempre uma forma de dar de si. Mesmo que não se tenha muito o que dar em dias como esse. Ainda sim continuo sendo eu.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Beatitude Hipócrita

A hipocrisia é a lei que rege nossas vidas. É nela que nos baseamos na hora de tornar legítima nossa irresponsabilidade latente. Sempre dá certo.

Veja você que, muitas vezes, o Diabo é acusado de crimes que não cometeu. Constantemente levantamos falso testemunho contra ele. Pecamos contra o Gramunhão, como se a culpa de todos os males viessem dos calabouços do inferno. É o alívio psicológico que tranquiliza a alma. A auto-enganação.

A beata que não tinha seus pedidos atendidos estava certa de que era o Diabo quem conspirava para que suas preces fossem ignoradas. Esfregava o terço como se fosse a lâmpada do Alladim. Aí, como nem Deus nem o gênio apareceram, ela concluiu que seria preciso radicalizar. Pensou num jejum. Daquele feito pelo bispo nordestino e que comoveu o Brasil. Quem sabe a misericordia divina não viria a seu favor?

Diante do sacrário ela firmou compromisso. Ficaria um mês à base de pão e água, até que suas preces fossem ouvidas. Preces que ninguém nunca soube o que continham. Tratava-se de um segredo entre ela e o Criador. Como o celibato é agradável a Deus, também daria uma pausa nas relações durante esse tempo. Não sabia se o marido compreenderia. Sabia apenas que o plano era infalível. Até podia imaginar, além das nuvens, o rosto do Senhor chorando, comovido com tamanha devoção. Tanto imaginou que ela própria chorou. Ficou com dó de si mesma. Coisas de beata. Normalmente elas se admiram.

Feito o voto a beata foi direto até a padaria. Comprou mais pão que o normal. E como o padeiro não fez nenhuma observação sobre isso, ela achou que deveria se explicar. Contou que fizera um acordo com Deus. Pagaraia a graça recebida na base da abstinência. Por isso queria os pãezinhos mais murchos. Nada de prazeres. Afinal de contas, o jejum é exatamente o antônimo do prazer.

O olhar solidário e compassivo do padeiro deu à beata a certeza de que estava na direção certa. Certeza que ficou redundante quando contou pra vizinha sobre o plano sagrado. Teve as mãos beijadas, recebeu uma profunda reverência. Foi canonizada pela dona Maria. Esse tipo de adulação era tudo que a beata queria. Em nenhum momento ela pensou em abster se do ego.

Depois de uma semana de jejum ela já não fazia os serviços de casa. Não tinha forças. Passava o tempo esparramada na cadeira de balanço da varanda. Achava-se nobre. Grande. Lembrou-se da reação do marido, que a chamou de louca quando ela negou um carinho preliminar investido por ele. Foi assim por dois dias. No terceiro dia o bafo da esfomeada estava tão insuportável que o marido decidiu dormir na sala. Deixou que a beata dormisse com os anjos. Mas a beata já não tinha tanta certeza da coerência de seus atos. Via isso como a provação pela qual passam os santos. E pensou no verdadeiro sentido do sacrifício. Talvez ele só valha quando necessário. Como um mal que vise um bem maior. De modo que não possa ser usado como uma chantagem, para mostrar que a vontade de um pedido atendido está acima das necessidades humanas. Talvez estivesse errada. A fome, que normalmente faz com que as pessoas percam a razão, parecia trazer juízo àquela mulher.

Na manhã seguinte a beata acordou numa cama de hospital. Estava recebendo soro e a filha disse que estava feliz por ela ter tomado um prato de sopa. Pobre beata. Chorava copiosamente. Foi traída pelo próprio inconsciente e quebrou a promessa sem perceber.

- Não fui eu! - dizia ela. - Foi o Encardido que me fez faltar com Deus. A culpa é dele. Esse demônio seduziu meu inconsciente e me enganou. Sou a própria Eva comendo a maçã do Paraíso!

Nunca pensou no fato de que Eva comeu do tal fruto por ambição. Que a fome não pode ser vista como uma tentação do inferno, e sim como necessidade do corpo. Também não se lembrou que assumir as consequências dos próprios atos é uma necessidade do caráter do ser humano.