
Não se trata, entretanto, de um mero sacrifício. Os sacrifícios ofertados pelos israelitas no Antigo Testamento tinham por única finalidade justificar o seu “eu” perante Deus. Não era um ato gratuito. E quando o ato não é motivado pelo amor, pode nos levar à auto-suficiência e à ilusão de que a Graça de Deus parte, unicamente, da nossa disposição em nos sacrificar. O homem estaria pagando a Deus por suas faltas e, em certos momentos, era como se Deus passasse a lhe dever algo em vista do sacrifício oferecido. O homem estaria fazendo justiça (segundo o conceito humano), e isso atrairia a Graça. Foram para situações como essas que o Senhor disse: “Eu quero a misericórdia, e não o sacrifício” (cf. Os. 6,6). A misericórdia é o cerne da prática Cristã por ser atitude de quem ama e ser direcionada, necessariamente, ao outro. Era de cristãos misericordiosos que Tertuliano (+122) falava quando expressou a famosa frase “Vede como se amam”. Esses cristãos sabiam que, uma vez alvos da misericórdia de Deus, também eram chamados a exercer a misericórdia aos outros. “De graça recebestes, de graça deveis dar.” (Mat. 10,8); “Bem aventurados os misericordiosos, por que alcançarão misericórdia” (Mat. 5,7).
Nota-se a Misericórdia, também, na capacidade do Senhor de transformar o mal em bem. Em seu livro “Memória e Identidade”, o papa João Paulo II relembra suas reflexões durante a Segunda Guerra Mundial e o Comunismo: “Mais tarde, já com a guerra terminada, eu pensava comigo (...) deve haver um sentido em tudo isso (...) eu pensava isso sim. Que de alguma forma aquele mal deveria ser útil ao mundo e ao homem. De fato acontece, em certas ocasiões, que o mal se revele útil enquanto cria situações para o bem. Porventura Johann Wolfgang von Goethe não definia o diabo como ‘uma parte daquela força que quer sempre o mal, e faz sempre o bem?’”, pensava o jovem Wojtyla. Surge aí uma das suas impressionantes conclusões: a Misericórdia Divina impõe um limite ao mal. Ora, como não desejá-la? Como negar essa conseqüência inerente a um Deus que é Amor?
Uma outra análise feita por João Paulo II no “Memória e Identidade” fala das revelações da Irmã Faustina Kowalska à respeito da Divina Misericórdia. Essas revelações surgiram no momento em que explodia a Segunda Guerra Mundial. Era o aviso de que a Misericórdia de Deus não estava alheia àquele triste momento pelo qual passava a humanidade. Seus braços estavam abertos aos que O quisesse. De fato, a Polônia e alguns países da Europa precisavam dessa certeza. Sobretudo os homens, de uma forma mais subjetiva, necessitam dessa certeza: A certeza do Bem Maior diante do mal. Para tanto, é preciso se reconhecer pecador e limitado enquanto homem, não ocultar nossas feridas. Como pensava Santo Agostinho, O Senhor “é Misericordioso, e eu miserável”. É a nossa humanidade que nos aproxima do Divino. A Sua Misericórdia nos resgatou das cadeias do maligno. A Deus basta que nos deixemos amar. A nós, basta-nos a Sua Graça.